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Bruno Space Painel de Debates

Cercado de tabus e imposições, o auge do prazer pode ser atingido por mais de um caminho. Mas passa pela cabeça — e começa no autoconhecimento

Renata Reif , iG São Paulo

O orgasmo está diretamente relacionado ao seu estado emocional. Esqueça a imagem de que uma boa transa é garantia para o clímax: a penetração definitivamente não é a melhor maneira de chegar lá. “Ter a obrigação de gozar durante o coito é tão ruim para a mulher como a questão da ereção para o homem”, compara o médico e sexólogo Gerson Pereira Lopes, também autor do blog “Dos Prazeres da Vida”.

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Mitos e imposições ainda fazem do orgasmo feminino um tabu na sociedade

O passo fundamental para se dar bem na cama é livrar-se das amarras da “performance perfeita” e não querer só agradar o parceiro. Fingir o orgasmo é uma armadilha para a própria mulher. Daí a importância de se conhecer e não ter vergonha da masturbação – tocar-se não é exclusividade dos homens. “Com a masturbação clitoridiana a mulher aprende a ter prazer orgástico, e transporta este prazer, treinado e estimulado por ela ou pelo parceiro, para ter o clímax intravaginal”, resume Carmita Abdo, sexóloga fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex).

A autora norte-americana Mara Altman se deu conta da importância do estímulo depois de concluir sua pesquisa para o livro “Esse Tal de Orgasmo” (L&PM Editores). Antes, a jornalista e escritora achava que o orgasmo era responsabilidade do parceiro. “Percebi que as mulheres precisam conhecer como seus corpos funcionam, descobrir o que as excita e qual a melhor maneira de ter um orgasmo”, afirma. “Além de comunicar claramente para os nossos parceiros a melhor forma de nos dar prazer. Não é justo esperar que ele leia a nossa mente para o sexo ser bom”. Outro mito bastante perpetrado pelo cinema e pela pornografia é o orgasmo perfeitamente sincronizado. “Achar que o homem e a mulher precisam chegar juntos ao clímax é uma bobagem. Acontecer isso é raridade”, esclarece Gerson.


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Mara Altman: ‘Percebi que as mulheres precisam conhecer como seus corpos funcionam e descobrir o que as excita’

Pequenas grandes mentiras

Os motivos para as mulheres mentirem para o parceiro são variados. “Seja porque não querem desapontá-los ou porque estão cansadas e querem acabar logo, ou porque querem que os homens pensem que elas são orgásmicas mesmo não sendo”, salienta a sexóloga Pepper Schwartz, doutora em sociologia, professora na Universidade de Washington (EUA) e uma das organizadoras da “The Normal Bar” (em tradução livre, “O Padrão Normal”), a mais recente e completa pesquisa sobre comportamento sexual humano.

Segundo pesquisa da Universidade de Chicago (EUA) realizada em 2013, 70% das mulheres nunca gozaram com parceiros. Para Lopes, o índice tem muito a ver com o machismo. “Atrás de uma mulher oprimida há sempre um homem opressor”, acredita o sexólogo, que ainda situa os países latino-americanos como mais problemáticos nesta questão. Estudos do Projeto de Sexualidade da USP (ProSex) realizados em 2008 dão conta de que 50% das brasileiras têm dificuldades para chegar ao orgasmo.

50% das brasileiras têm dificuldades para chegar ao clímax e 26% nunca tiveram qualquer tipo de orgasmo

Carmita divide as mulheres em três grupos: “26% nunca tiveram qualquer tipo de orgasmo. 35% têm capacidade para ter só o orgasmo clitoridiano. E o restante consegue ter os dois, clitoridiano e vaginal”. Segundo a especialista, variáveis como autoconhecimento, a disposição da mulher, relacionamentos e parceiros, entre outros, definem esses números.

Contudo, uma coisa é certa: o orgasmo tem forte componente cerebral, pois pode ser alcançado sem o contato físico. “Isso é observável em estudos. Por exemplo, o parceiro pode mobilizar tanta excitação nela, que o físico não é tão importante”, comenta Carmita.

Não confunda prazer e orgasmo. Eles não são sinônimos e o primeiro existe sem o segundo. “Olhares, sentires e ouvires podem dar mais prazer do que microdescargas elétricas com cerca de seis segundos de duração”, compara Lopes. Mara completa: “Acho que é um mito colocar o orgasmo como a parte mais importante do sexo. Isso faz com que muitas pessoas pensem no orgasmo como um objetivo, quando o sexo não deveria ter metas. Sexo é melhor quando a pessoa busca o prazer, não uma pontuação ao final de uma relação sexual. O caminho do prazer fará com que a mulher chegue lá, ao clímax”.

Mais honestidade

Mitos e imposições como estas ainda fazem do orgasmo feminino um tabu na sociedade. É a opinião da ilustradora argentina Fernanda Cohen, 33 anos, autora de “Guía Ilustrada del Orgasmo Femenino” (Ed. Livros del Zorzal). “Também tem muito a ver com o fato de ser algo impalpável. O mesmo pode ser dito sobre arte: é difícil falar sobre o assunto porque é muito subjetivo”, ela pondera.


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No ‘Guía Ilustrada del Orgasmo Femenino’, a ilustradora Fernanda Cohen propõe um jeito delicado para abordar o prazer feminino

 

 

Contar que fingiu [um orgasmo] tem quase o peso de uma traição para o homem

Não à toa, em francês, o orgasmo é chamado de “petite mort”, ou pequena morte, como lembra a ilustradora Fernanda. “Orgasmos são necessários para levantar nossos espíritos. Assim como comer chocolate, fazer exercícios, ir ao banheiro, se apaixonar, ter sucesso em alguma coisa ou o que quer que produza essa sensação”.

Fernanda já fingiu orgasmo quando era mais nova e afirma que as mulheres usam esta tática para se livrar de um problema, mas acabam criando um muito maior. “Contar que fingiu tem quase o peso de uma traição para o homem”, diz.

Mas nem tudo está perdido. O homem deixou de pensar só no próprio prazer e está mais atento à parceira. “Ele não foca mais no orgasmo, e sim no toque, nas carícias, no processo. Diferente do homem antigo, que só pensava no resultado”, afirma Lopes. Pepper recomenda que a mulher relaxe. “Goste mais de estar com o seu parceiro ou mesmo de tocar a si mesma. Não faça do orgasmo seu único objetivo e não se sinta pressionada para ter uma ótima performance. Experimentem juntos o sexo e a sensualidade. Seja mais honesta e menos obcecada”, finaliza.