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Entrevista feita em 09 Outubro 2014 • SÁBADO
Em Portugal era Fábio. Na Síria é AbduRahman Al Andalus, um dos milhares de ocidentais que combatem nas fileiras do Estado Islâmico.

No início de 2013, Fábio vivia em Londres. Sozinho. Tinha ido para a capital britânica estudar artes – mas também para seguir o sonho de ser jogador de futebol. Estudou espanhol, fitness e artes marciais. Aos 20 anos, partilhava na rede social Twitter as proezas nos jogos de futebol. Dizia ter talento. E sonhos. A 24 de Março desse ano escreveu: “A maratona para ser uma lenda continua.” Mas, no dia 31, deixava a sua penúltima mensagem: “A decisão da minha vida.”

Em Outubro estava na Síria. Tinha ido juntar-se aos grupos islâmicos que combatiam o regime de Bashar al-Assad. Mudou o nome para Abdu Rahman Al Andalus e tornou-se um dos milhares de ocidentais a combater na guerra civil síria. “No início juntei-me à Al Ansar wa Muhajireen [o Exército de Emigrantes], liderado por Abu Omar Shishani”, conta à SÁBADO, a partir de Minbij, no Norte da Síria, onde vive com as três mulheres. Uma delas, Ângela, é portuguesa. Segundo o semanário Expresso, viajou da Holanda, onde vivia com a mãe, para a Síria depois de conhecer Fábio na Internet. Casaram-se. Tal como o marido, mudou de nome. Agora é Umm.

Fábio começou por combater em Aleppo – já sob a bandeira do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS), grupo liderado por Abu Bakr al-Baghdadi e subordinado à Al-Qaeda. Mas no início de 2014, a recusa em obedecer às instruções da organização e a sua extrema violência levaram a Al-Qaeda a expulsar o ISIS. Isolada, a organização lançou uma ofensiva para criar um califado entre a Síria e o Iraque. As conquistas sucessivas culminaram com tomada de Mossul, em Junho. Al-Baghdadi alterou o nome do grupo para Estado Islâmico, proclamou-se califa e exigiu a lealdade de todos os muçulmanos.

Fábio estava entre os muitos que celebraram a tomada de Mossul. Em Minbij, filmou os festejos. O vídeo foi posto no Facebook e ainda hoje está na página do The Washington Post. Ele sabe disso. Tal como conhece o que já foi publicado sobre ele. “A Umm conta-me as notícias sobre nós”, diz à SÁBADO. Aceitou dar esta entrevista, através do chat do Facebook, em inglês e às vezes em português, para que “a verdade seja dita”. Houve questões a que não respondeu. Por não se sentir “à vontade” ou por considerar as respostas “confidenciais”. Mas respondeu à maioria – entre o passado domingo e esta terça-feira, dia 7 de Outubro de 2014.

Houve notícias de que tinha sido ferido. Está bem?
Sim, não me aconteceu nada. Foi só propaganda, como sempre, para dar mais gás à saga dos portugueses extremistas. Como o posso ajudar?

Gostava então de começar por confirmar alguns factos que têm sido publicados.
Claro.

Nasceu em Lisboa?
Não. Em Benguela, Angola.

Porque foi para Londres?
Fui para a faculdade, estudar artes.

Não foi para jogar futebol?
Primeiro para estudar.

Qual faculdade?
Não me sinto confortável em falar sobre os meus dados pessoais, sr. Pinto. Terá de escolher as suas perguntas com sabedoria. Sou uma pessoa tímida.

Muito bem. Mas tudo parece pessoal.
Quase tudo.

Julgo que não foi sempre muçulmano. O que o fez aproximar-se do Islão?
Conheci pessoas muçulmanas quando me mudei para Londres e fiquei curioso. Li o poderoso Corão. E as provas claras dos seus versos ajudaram-me.

Como?
Deram-me confirmações. Muitas das chamadas descobertas recentes foram mencionadas no Corão há milhares de anos. Como o profeta Maomé (que a paz e as bênçãos caiam sobre ele) não sabia ler ou escrever, o livro só pode provir do Divino.

Que tipo de factos?
Muitos. Alá, no Corão, descreve com detalhe o desenvolvimento do embrião; as barreiras entre a água doce e salgada nos oceanos; como as montanhas são como estacas que mantêm os solos unidos e tornam a terra estável. Mudou a minha forma de pensar. Esta é Al ard’ulillah, a Terra de Alá. Todas as criaturas pertencem ao seu criador, certo?

Por isso decidiu seguir a suas ordens?
Obviamente. Este mundo pertence ao criador. Por isso, não é obrigatório vivermos de acordo com as suas leis?

Mas há muitas maneiras de o fazer.
Errado. As leis de Deus são perpétuas. Porque Alá é perfeito e o mais elevado. Só há uma maneira. E é o monoteísmo islâmico. Mas as pessoas insistem em implementar outras leis que não as de Deus. Algumas são descrentes e desobedientes. E Alá não as ama. Vivemos para alcançar o prazer de Deus porque este mundo é apenas temporário. E Alá promete-nos mais e melhor, apenas em troca de O amarmos e adorarmos. Só a Ele. É tanto aquilo que Ele nos promete e tão pouco o que nos pede. E quem é mais fiel às suas promessas que Deus?

Porque decidiu ir para a Síria?

Eu explico. O mensageiro de Alá, Maomé (SAW) [abreviatura para salla Allah alaihi wa sallam, que significa “que as bênçãos e a paz de Alá estejam com ele”] disse: “A Ummah [nação islâmica] é um corpo.” E se parte sente dor, o resto do corpo também a sente. O povo da Síria foi massacrado, torturado e humilhado pelo regime. E nós muçulmanos somos irmãos. É obrigatório ajudarmo-nos uns aos outros. Hoje, após o estabelecimento do califado, os muçulmanos da Síria recuperaram a sua honra. As suas casas são protegidas pelo Estado Islâmico (EI). As suas filhas já não são violadas pelo regime. A sua riqueza foi devolvida aos seus donos. Eles podem agora viver como muçulmanos sob as leis de Alá.

Recebeu algum treino?
Sim. Um pouco de tudo: Corão, armamento, tácticas. Durante um mês. O resto aprende-se no campo de batalha, com a experiência.

Há relatos que dizem o contrário, que as raparigas estão a ser violadas pelos mujahedin do EI.
Mentiras fabricadas pelos aliados de Israel e da América para pôr as pessoas contra o Dawla Islamiya [Estado Islâmico]. Os muçulmanos ocidentais também. É uma velha táctica usada por Hitler na II Guerra Mundial: inventar mentiras sobre o inimigo para obter o apoio do povo.

Houve também milhares de pessoas que fugiram para a Turquia para escapar à morte.

Milhares deixaram a Síria antes da nossa entrada por causa do regime de [Bashar al-] Assad. Fugiram por causa dos bombardeamentos, ataques aéreos e massacres.

E aqueles que saíram recentemente?
Ultimamente são os curdos que estão a fugir para a Turquia. Secularistas, aliados da América. Têm-lhes sido dadas armas para lutar contra o Estado Islâmico.

Quando viajou para a Síria, como sabia para onde ir?
Depositei a minha confiança em Alá – e ele guiou-me ao longo do caminho. Não foi difícil. Alhamdulillah [louvado seja Deus].

Foi com dois irmãos portugueses?
Não.

Então foi sozinho.
Não. Bem, sim, de certa forma.

 

Não estou a perceber.
Vamos pôr as coisas assim: vim pelos meus meios.

Disse que foi para a Síria lutar contra o regime de Assad. Juntou-se a algum grupo?
No início juntei-me à Al Ansar wa Muhajireen [ou o “Exército de Emigrantes”, grupo criado em 2012 e composto, maioritariamente, por estrangeiros], liderado por Abu Omar Shishani [um antigo-comandante checheno].

Quando foi isso?
Em 2013, antes das lutas internas contra o Exército Livre Sírio (ELS) [grupo de oficiais e soldados que abandonaram as forças de Bashar al-Assad].

Recebeu algum treino?
Sim. Um pouco de tudo: Corão, armamento, tácticas. Durante um mês. O resto aprende-se no campo de batalha, com a experiência.

Para onde foi lutar no início?
Em Aleppo. Contra o regime.

Participou na tomada da cidade?
Sim. Foi uma batalha muito dura, sobretudo devido às condições climatéricas. Conseguimos libertar os irmãos que eles cercaram no início.

Ainda estava com o Al Ansar wa Muhajireen?
Não. Já nos tínhamos juntado ao Estado Islâmico.

Porquê?
Porque a América ofereceu a todos os grupos 200 mil dólares [€158 mil] por mês aos que lutassem contra o EI e porque eles tinham o plano de estabelecer o califado. Um dos companheiros de Maomé (SAW) disse: “Se quiserem ver onde estão os piedosos, vejam para onde as setas dos descrentes estão apontadas.” Veja: América, Israel, o regime Sírio, a Arábia Saudita, o Irão, Reino Unido, Alemanha, França, Itália e muitos outros estão disponíveis para combater o EI. Isso quer dizer que é o grupo que está no caminho certo. Como pode ver, o Califado foi estabelecido – e continua a expandir-se. Todos os dias.

Já foi ao Iraque?
Sim, no mês passado, a Mossul, cidade já libertada.

Fazer o quê?
É confidencial.

Houve um vídeo que se tornou viral no Facebook após a tomada de Mossul, partilhado por Abdurahman Al Andalus. Foi filmado por si?
Sim. Mas não foi no Iraque, foi aqui, em Minbij. Éramos nós a celebrar porque os irmãos conquistaram Mossul.

Encontrou aí outros portugueses?
Sim. Irmãos adoráveis. Gentis, honestos e muito bravos. Os melhores de todos. In shaa Allah [se Alá quiser].

 

Encontrei uma fotografia sua no Twitter com Abu Issa al-Andaluzi (Celso). Sabe onde ele está?
Sim, sei. Estamos sempre juntos.

Ele está bem?
Sim. Forte e saudável.

Houve notícias de que um português teria sido ferido e tinha perdido as pernas. Sabia disso?
As pernas dele ainda estão juntas com o corpo, lol [risos]. E o Nero [outro português] também está bem.

Vocês estão sempre juntos?
Sim, mas não com o Nero. Ele é um lobo solitário.

Na Síria, encontrou o que estava à espera?
Sim. Estou certo de que Alá está mais agradado comigo do que quando estava em terras kaffir [infiéis]. Isso dá garantias ao meu coração. Não procuro possessões mundanas. Apenas o prazer de Alá. Porque o além é melhor e mais longo do que este mundo.

Também encontrou uma mulher.
Qual delas? Lol.

Mais do que uma?
Obviamente. Tenho três e estou agora à procura da quarta. É casado, sr. Pinto?

Sou. A Ângela é a única portuguesa?
Com quantas? Só uma? Está a perder o comboio, Sr. Pinto. Estou só a brincar. Sim, é a única portuguesa.

Como se conheceram? 

Na Internet.

Isso é surpreendente. Estão numa zona de guerra e conseguem ir à Internet.
Também nos surpreende a nós. Chamamos-lhe a jihad de cinco estrelas. Vivemos dentro do califado e levamos a guerra para longe de onde vivemos. Quando temos de lutar fazemos a mala e vamos substituir os irmãos que estiveram na frente. É um sistema rotativo.

Mas têm Internet no telemóvel? Num cibercafé?
Sim. É o Estado Islâmico, sr. Pinto. Neste momento estou num cibercafé.

 

Vivemos dentro do califado e levamos a guerra para longe de onde vivemos. Quando temos de lutar fazemos a mala e vamos substituir os irmãos que estiveram na frente. É um sistema rotativo.

Tem filhos?

Dois. Mas um não é meu.

Vivem consigo?
Sim. Em casas diferentes, obviamente, caso contrário “o bicho pega”. Lol.

Em qual das casas passa a maior parte do tempo?
Partilho o meu tempo de forma igual entre as minhas mulheres.

Elas estão sempre separadas?
Sim. Por razões de segurança, lol.

Conheceu-as todas online?
Hmmmm, prefiro não responder a isso.

 

 

Acha que eu poderia falar com a Umm (Ângela)?
Não.

Consegue descrever-me o seu dia?
É uma vida normal. Tenho o meu trabalho como soldado e vou lutar quando tenho de o fazer. Quando não preciso, fico em casa com a família. De vez em quando um avião vem e lança uma bomba. O costume. Mas, Alhamdulillah, recorda-nos que estamos em guerra e que as pessoas ainda precisam da nossa protecção.

Como funciona quando tem de lutar? Há alguém que lhe liga? Tem de ir a uma espécie de quartel?
É confidencial.

Aprendeu a falar árabe?
Sim. O suficiente para manter uma conversa. Sou bom a aprender línguas, Alhamdulillah. Falo fluentemente português, inglês, árabe e aprendi espanhol no Reino Unido. Fiz lá vários cursos, como fitness e artes marciais.

Tem um salário enquanto soldado?
Sim. Não é muito. Mas Alá é um “fornecedor”. O melhor de todos. E também recebemos despojos de guerra.

Recebem comida de Alá?
Sim. Obviamente. De quem mais? Tudo provém de Alá.

Quanto tempo costuma ficar na frente de batalha?
Depende. Vamos dizer, uma semana. Notícias de última hora: os irmãos acabaram de tomar Tikrit, no Iraque.

Qual foi o período mais longo?
Quase dois meses. Na batalha de Aleppo, contra o ELS.

Matou alguém?
Alá saberá.

O que pensa sobre isso, sobre matar alguém?
Matar é fácil. Sobretudo quando temos de matar aqueles que violaram mulheres e crianças. E ainda é mais fácil matar aqueles que matam muçulmanos porque eles querem obedecer a Alá.

Porquê? O Islão não é uma religião de paz?
Maomé (SAW) disse: “Eu sou o profeta da misericórdia e sou o profeta da guerra!” É uma religião de paz depois de as pessoas viverem sob os mandamentos de Alá. Antes não porque os descrentes são pessoas que oprimem, roubam, mentem, enganam, cometem adultério, matam, destroem, jogam, bebem, fumam e publicam imoralidades como pornografia e homossexualidade. Eles são os culpados deste mundo estar em constante guerra.

Então seria capaz de matar a sua família se ela se recusasse a viver sob os mandamentos de Alá?
Sou capaz de matar qualquer um que lute contra o Islão. Se eles não quiserem aceitar o Islão, não há problema. É entre eles e Alá. Mas se alguém levantar a espada contra Alá, o seu mensageiro e o seu deen [modo de vida], é permitido tirar o sangue a essa pessoa. Não se pode matar alguém que não aceite o Islão. Só aqueles que pegam em armas contra ele. É por isso que temos cristãos a viver entre nós, dentro do califado. Pagam impostos e nós protegemo-los, às suas propriedades e à sua honra.

Acredito que posso morrer a qualquer momento. Alá saberá o melhor. Maomé (SAW) e muitos dos seus companheiros lutaram toda a vida e morreram nas suas camas. 

Fala com a família regularmente?
Nem por isso.

 

Explicou-lhes a decisão de partir para a Síria?
Não. É difícil comunicar com eles. E, obviamente, não compreendem.

 

O que gostava de lhes dizer?
Não se preocupe com isso. É hora da oração. 10 minutos.

 

[10 minutos depois]

 

Nunca falha uma oração?
Nunca.

 

Nem sequer em batalha?
Especialmente durante as batalhas.

 

Faz parte de um grupo? Uma brigada?
Sim, das forças especiais. Uma brigada comandada por Omar Shishani, o principal comandante do EI.

 

Está a tornar-se mais importante?
Não importa. Todos os mujahedin são importantes.

 

Testemunhou os bombardeamentos de Raqqa?
Não. Não estava lá. Mas estava em Minbij, há alguns dias, quando eles bombardearam. Acreditamos que foi o regime, não os Estados Unidos.

 

Como foi?
[Envia uma fotografia de um prédio destruído]. A bandeira ainda está de pé. Podem destruir os nossos edifícios, mas não a nossa fé.

 

Qual é a frequência dos bombardeamentos?
Nem sei dizer. É muito aleatório.

 

Que edifício era aquele?
Isso é confidencial.

 

Não teme pela vida dos seus filhos?
Claro que sim.

 

Acha que vai viver o suficiente para os ver crescer?
Acredito que posso morrer a qualquer momento. Alá saberá o melhor. Maomé (SAW) e muitos dos seus companheiros lutaram toda a vida e morreram nas suas camas.

 

 

Está pronto para morrer em nome de um Deus?
Sim, in shaa Allah. Todos os dias da minha vida. Mais notícias: os talibãs declararam-nos a sua fidelidade, Alhamdulillaj. O mundo está a mudar, sr. Pinto. Uma nova era está prestes a começar, In shaa Allah.

 

Conhece os dois mundos, ocidental e muçulmano. Acredita mesmo que esse é melhor? 

Muito melhor. Vivemos como os muçulmanos devem viver. Temos a nossa honra de volta.

 

Portanto, é melhor viver na pobreza, sem escolas e num mundo onde as mulheres são oprimidas?
Não. Essas coisas não existem mais aqui. Como disse, somos um Estado Islâmico. A Síria e o Iraque já não existem. Damos às pessoas salários e educação, comida e caridade e as mulheres já não são oprimidas no khilafa [califado], onde os mujahedin têm o controlo.

 

As mulheres podem andar sem burca?
Elas estão contentes por se cobrirem. Porque antes, durante o regime, isso não lhes era permitido.

 

Que educação é que dão? 

Principalmente islâmica. Também há educação normal, mas disciplinas como a filosofia foram banidas porque ensinam kuffr [a recusa em aceitar a autoridade de Alá] e levam a desacreditar da unicidade de Alá. Sr. Pinto, posso convidá-lo?

 

Convidar-me?
Para vir ao EI, fazer a reportagem da sua vida. E contar ao mundo a verdade sobre os soldados do EI.

 

O histórico da relação entre o EI e os jornalistas ocidentais não dá margem para muita confiança.
Sim, lol. Mas se houver um acordo entre nós teria a minha protecção. Al mu’min la ya qadeeb, “o crente não é um mentiroso”. Eu não mentiria. De qualquer forma, é só uma sugestão. Beneficiaria os dois lados. Mas percebo que mantenha as defesas levantadas.

 

Não é fácil ignorar a decapitação dos jornalistas.
Só houve um jornalista, que fez um vídeo a contar a verdade. E esse está vivo. Os outros não eram jornalistas.

 

Está a falar do repórter da revista Vice [Medyan Dairieh, que esteve três semanas no interior do EI]?
Sim.

 

O repórter é árabe, não é ocidental.
Continua vivo. Pense no que lhe ofereci. In shaa Allah.
Teria autoridade para garantir a protecção a um jornalista estrangeiro?
Sim. Era só falar com os líderes.

 

Presumo que não tenha acesso a Abu Bakr al-Baghdadi.
Não era preciso. Posso obter permissão de outros, ao nível regional.

 

Como é que estão organizados?
Apenas… muito organizados.

 

Têm batalhões, como num exército normal?
Sim, pode pôr a questão dessa maneira.

 

Qual é a sua função?
No início era um soldado normal. Agora sou um “treinador” militar. Todos os irmãos que não tiveram formação têm de passar por mim.
Quantos recrutas já treinou?
Mais de mil.

 

Em quanto tempo?
Menos de três meses.

 

Algum português?
Não.

 

Porque se tornou “treinador”? Distinguiu-se?
…sou tímido para responder a isso. Digamos apenas que sei como dar treino. Mas em breve vou fazer outra coisa.

 

O quê?
Isso é confidencial.

 

É uma promoção?
Hmmm, não. Tenho apenas boa pontaria.

 

Quão boa?
Não me quero gabar. Mas muito boa.

 

Acerta numa lata a quantos metros?
Uma lata é fácil. Talvez uns 400m. Estou a olhar lá para fora e a imaginar. Sim, 600 m é demasiado.

 

 

Acha que algum dia vai voltar à Europa?
Sim. Com a bandeira da tawheed [a bandeira negra, símbolo da unidade islâmica] numa mão e a arma na outra.

 

Acha mesmo que isso é possível?
A 100%. Segundo as profecias, vai acontecer. Primeiro vamos libertar Constantinopla [actual Istambul], depois vamos combater o exército romano (europeu) em Aleppo.

 

E depois?
Alá saberá. O mundo inteiro. O dajjal (o anticristo) virá.

 

O Abdu era cristão?
Católico, não praticante. Graças a Deus. A Bíblia é uma compilação de livros, não O livro de Deus. A Torah e o Evangelho foram distorcidos pelos judeus. É por isso que há hoje 36 versões da Bíblia e apenas um Corão.

 

Se entrasse na Europa dessa forma, provavelmente seria preso ou abatido.
Alhamdulillah [louvado seja Deus], mas teriam de fazer o mesmo com o resto dos meus irmãos que virão em grande número. E, até agora, nenhuma superpotência conseguiu derrotar os mujahedin.

 

Os mujahedin nunca venceram.
Nos media não. No campo de batalha, ganhamos sempre.

 

Sempre? Os talibãs não foram derrotados no Afeganistão?
Foram realmente?

 

Ainda há nazis, mas Hitler foi derrotado. Tal como os talibãs foram afastados do poder.
Então como é que os mais bem preparados e equipados soldados do mundo, os americanos, perderam a guerra no Iraque contra um punhado de mujahedin com kalashnikov que viviam nas montanhas e comiam pão e bebiam água?

 

Perderam?
Sim. Tanto que deram armas aos iraquianos e foram-se embora.

 

Portanto, a não ser que todos os mujahedin sejam mortos, nunca vão perder?

Claro que não. O Islão nunca vai perecer.

 

Pensa voltar a Portugal?
Sim, se viver até esse dia, In shaa allah. Reabrir o Al Andalus [nome dado à Península Ibérica pelos conquistadores muçulmanos do século VIII], devolver a honra ao seu solo, que está a ser destruída por Cavaco Silva. Agora tenho que ir embora. A terceira mulher cozinhou para mim.

 

A Ângela?
Sim. Ela cozinha muito bem, MashaAllah [expressão de apreço, que significa “como Deus quis”]. Honestamente, sinto a falta da cozinha portuguesa. Tenho que ir. Falamos amanhã, se Deus quiser. Adeus sr. Pinto.

 

[No dia seguinte, segunda-feira.]

 

Ontem estava a falar sobre Portugal. Segue a actualidade portuguesa?
Nem por isso. A Umm conta-me as notícias sobre nós. Para ser honesto, só me interessam as notícias desta guerra.

 

O que acha daquilo que ela lhe tem dito?
Acho engraçado, mas um pouco patético para ser sincero. Estão a fazer com que pareçamos más pessoas, quando nós deixámos as nossas famílias, amigos, casas e possessões para vir ajudar os oprimidos. E agora estamos a ser descritos como maus, sanguinários e terroristas.

 

Então porque decidiu responder às minhas questões?
Confio em Alá. Pode ser que através de si a verdade seja dita. Alá sabe o que é melhor.

 

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